COINCIDÊNCIAS

Andava eu a comentar em casa e com amigos a boa estratégia gráfica do nosso primeiro-ministro quando, há dias, fui ver a exposição "Ombro a Ombro: retratos políticos", no novo museu MUDE onde encontrei o cartaz da campanha legislativa da Ségolène Royal.

Mas que grande coincidência, senhores...




"Nenhum povo ainda se organizou com base na ciência e na razão; nunca houve exemplo disso, a não ser por um instante, por asneira. O socialismo, pela sua essência, tem de ser um ateísmo, porque proclama precisamente, desde as primeiras palavras que é um sistema ateísta e tenciona organizar-se exclusivamente com base na ciência e na razão. A razão e a ciência na vida dos povos, tanto na actualidade como desde o principio dos tempos, desempenham apenas um papel secundário e de serviço; e terão este papel até ao fim dos tempos. Os povos constituem-se e movem-se por outra força, uma força que governa e impera mas cuja origem é desconhecida e inexplicável. Esta força é a força do desejo incansável de ir até ao fim e, ao mesmo tempo, a força que nega o fim. É uma força de confirmação ininterrupta e incansável da existência e de negação da morte."

in DEMÓNIOS de Fiódor Dostoiévski

VICE-VERSA

Viver junto é viver sozinho. Viver sozinho é viver junto. Tal como uma mosca chata e mole que descreve armilas acima de nós – a mosca incomoda, não pelo zumbido, mas pelo que os outros possam pensar de nós caso não tomemos nenhuma decisão relativamente à mesma. De qualquer forma, nunca estamos satisfeitos com a vida. Quem está junto sente, sempre, falta de qualquer coisa: uns dos amigos, outros das noites passadas em claro, outros ainda das surpresas a que estavam habituados – em todos sopra uma nostalgia. Quem está sozinho sente, sempre, falta de qualquer coisa:de uma longa e profunda conversa a dois, de se sentir seguro, do que fazer aos domingos ou de um(a) confidente… - em todos sopra ansiedade.
Quem está junto abonima a necessidade de relatar todos os passos que dá, quem está sozinho abomina não ter ninguém para se justificar e/ou desabafar. Uns vociferam à comodidade, outros discutem com a instabilidade. Os juntos tratam mal a rotina, os outros desejam-na.
Quem está junto tende a relacionar-se com os amigos na mesma condição. Iniciam-se, obrigatoriamente, os jantares com “casais” (sempre quis escrever esta palavra!) e, obrigatoriamente de novo, falar mal dos outros a caminho de casa; acaba por ser uma fórmula simples de alivar a tensão e não falarem de si próprios. Já quem está sozinho só se relaciona entre pares, não há cá espaço para fazer “ de vela” (também gosto muito desta).
Quem está junto deixa de saber mentir - até porque está afastado de quem o safe -, quem está sozinho pode mentir a seu livre arbítrio – não tem tantas verdades, logo não se confunde. Os juntos procuram aventuras nas suas vidas, os outros estão saturados e denominam-as de desventuras. Os sozinhos procuram qualidades em todos, os outros procuram implicar com os defeitos do seu par. Uns falam mal de si, ou outros desviam este discurso a 90º. Em determinada altura, os juntos entendem ter morrido cedo, já os sozinhos que só vão viver tarde. Uns demoram mais para sair, os outros muito mais para voltar.
Quem está junto vê na relação um filho sem ser planeado, quem está sozinho vê numa relação o planeamento familiar. Uns vão comer a um restaurante, os outros ouvir. Uns já voltavam para casa dos pais, os outros já fugiam dela. A dificuldade que quem está junto tem para ser dono da última palavra, o que sofre quem está sozinho para desbloquear a primeira.
Quem está junto é cão de guarda, os outros são cães de caça. Uns despedem-se com beijos, os outros não se despedem, acenam. Quem está junto é um sozinho egoísta. Quem está sozinho é um junto magnânimo.

LUIS PACHECO - O TRADUTOR

(PONTO)

FIM D' ANO





PRETÉRITO + 2009

2009 chega a voar. E não se pode voar a olhar para o que fica nas costas. Eu gosto de voar, aliás, mesmo sem voar eu vou. Por favor, não me perguntem o que hoje já sei. Deixei de ser o Meu assunto preferido.Pouco quero saber de mim, enjoo-me há 31 anos. Na adolescência só falava de mim. Pouco a pouco fui percebendo o quanto me enganava. Assim que cheguei a adulto mudei o tema, falava (mal) dos outros; em bom rigor, não deixa de ser uma forma, mais elaborada, de continuar a falar de mim. Óbvio. O evidente alucina. A realidade deslumbra, alucina. A sobriedade é para quem (consegue) viver fora da realidade. Nas enormes montanhas da infância, há muitas rochas para escalar. Aliás, montanhas sem rochas não fazem qualquer sentido. No topo, ficava sempre de frente para os meus problemas. Subir à montanha custava. Depois, descer tornava as coisas mais fáceis, embora não seja o maior admirador das facilidades. Como o não sou do acaso, mas da ocasião. Serviria de alguma coisa sair diariamente de casa 10 minutos mais cedo? Seria diferente? Ou ter chegado à vida adulta mais cedo? Ou viver noutro país? Convenhamos, é extraordinariamente cómodo pensarmos que, em determinada altura, optámos por uma realidade desajustada, errada até. Pensarmos que existe uma realidade paralela, mais confortável, que sempre nos acompanhou sem por ela darmos. É um capricho egocêntrico imputar responsabilidades ao que não aconteceu. Partir a conta com quem não se conhece. Pois, não é assim que as coisas se fazem. Sem a nossa presença física nenhuma realidade se satisfaz. Mesmo estando é o que é. Porque ninguém salvaria um amor que tivesse de acabar, como ninguém compreenderia os seus pais se tivesse nascido antes, como ninguém seria são se guardasse memórias da dor. A realidade não multiplica mas torna uno. Passa tudo pela aceitação, contrariamente à tábua rasa. São confortáveis estes entendimentos. O aceitar das dores em pretérito ajuda-nos a diminuir-lhes a intensidade. Continua tudo possível. As possibilidades não morrem com o tempo. Está-se sempre a tempo. A viagem na felicidade ainda se pode fazer. Sem se questionar, porque as perguntas diminuem a alegria do presente. A nossa história é uma soma de tanto. É uma soma de tudo. Quantas destas horas as passei sem ver? Um terço? Uma década então. Aguma coisa terá ficado pelo caminho, alguma coisa terei perdido. Outra ganho… não sei bem. O que não me lembro posso ainda imaginar. A memória não se contraria. O sonho é poesia. Sonhar, melhor, imaginar é treinar com vontade. E eu, bem eu sempre treinei melhor do que joguei. Feliz 2009.

EM 2009

PRESENTE (AINDA) DE 2008 PARA 2009




Another World, Antony and the Johnsons - "The Crying Light"

ACABADINHO DE ADQUIRIR

OBRIGADO

FELIZ NATAL



Animal Collective - Banshee Beat
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HÁ UM ANO


Há um ano fui eu. E tu, parece-me, mais que tu
(- Canal aberto!),
lembras-te?
Não me recordo, é essa a minha maior lacuna, a minha grande, porventura gigante, insuficiência. Não me lembro… Tenho um vazio de cinco horas que me preenche toda uma vida. Tenho uma fresta por onde não passa luz por onde se projecta um arco-íris.

Diz a vox populi que tudo o que é bom passa depressa. Permite-me discordar, tudo o que é bom dura uma vida, agrafa-se em nós, tatua-nos a memória, preenche-nos transbordando. Ultrapassa-nos.
Caminho a teu lado. Dizíamos
(- Sorte do caraças…)
o que não queríamos, falávamos aos atropelos, brincávamos com a alegria. Entretanto o tempo, como é seu apanágio, foi caminhando connosco, perscrutando, avaliando, devagar, depressa, escondido ou de surpresa, piscou-nos o olho, ajudou-nos a atravessar deixando-se ficar, passeando… A seu lado, como se te tivessem cortado os fios do pára-quedas
( - Vamos devagar…)

entras tu; tão rápido como suave, aqui. Alternando zéfiros com redemoinhos, fazes de mim teu, do meu espaço nosso, da minha vida uma vida. Encontras-me. Descubro-te.
Há um ano foste tu. E eu, parece-me, mais que eu.

Obrigado.

Há um ano
.



INSTALLING A HUSBAND


Dear Tech support,

Last year I upgraded from Boyfriend 5.0 to Husband 1.0 and noticed a distinct slow down in overall system performance, particularly in the flower and jewelry applications, which operated flawlessly under Boyfriend 5.0.

In addition, Husband 1.0 uninstalled many other valuable programs, such as Romance 9.5 and Personal Attention 6.5 and then installed undesirable programs such as NBA 5.0, NFL 3.0 and Golf 4.1.

Conversation 8.0 no longer runs, and Housecleaning 2.6 simply crashes the system. I've tried running Nagging 5.3 to fix these problems, but to no avail.

What can I do?

Signed,


Desperate.


DEAR DESPERATE,

First keep in mind, Boyfriend 5.0 is an Entertainment Package, while

Husband 1.0 is an operating system.

Please enter command: ithoughtyoulovedme.html and try to download Tears 6.2
and don't forget to install the Guilt 3.0 update. If that application Works as designed, Husband 1.0 should then automatically run the applications Jewelry 2.0 and Flowers 3.5.

But remember, overuse of the above application can cause Husband 1.0 to default to Grumpy Silence 2.5, Happy Hour 7.0 or Beer 6.1. Please note that Beer 6.1 is a very bad program that will download the Snoring Loudly Beta.
Whatever you do, DO NOT install Mother- In-Law 1.0 (it runs a virus in the background that will eventually seize control of all your system resources).

Also do not attempt to reinstall Boyfriend 5.0 program. These are unsupported applications and will crash Husband 1.0.
In summary, Husband 1.0 is a great program, but it does have limited memory and cannot learn new applications quickly. You might consider buying additional software to improve memory and performance. We recommend Cooking 3.0 and Hot Lingerie 7.7.

Good Luck,

Tech Support

ENSURDECEDOR*



* como obra ímpar de genialidade estética.

IRONIA

Em greve estar todo o dia a produzir nove fichas de avaliação sumativa.

RENDIDO

LIFE photo archive




Alfred Eisenstaedt - 1936 - New York, NY, US

Dancers (ballerinas) at George Balanchine's School of American Ballet during rehearsal.

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ALGUNS SONHOS


"Eu quando for grande quero ser médico, porque a minha avó teve um AVC e eu não quero que aconteça a mais ninguém. e também quero ter nos anos o equipamento completo. Também quero muito, muito, mas mesmo muito que a minha avó melhore do AVC. E também quero que os meus primos vão lá a casa!"
O Altruísta - 8 anos - 3º ano.

"Eu gostava de tocar: violino, viola, piano eléctrico, bateria e guitarra. Esses instrumentos são fabulosos. Também gostava de ser professora de pintura quando fosse grande. Áh! e gostava que a minha família fosse feliz e tivesse dinheiro que chegasse para comprar tuuuuudo!"
A Artista - 8 anos - 3º ano

"Gostava de ser médica, porque a médica trata das pessoas, ajuda os doentes e a minha mãe disse-me que também se ganha muito (dinheiro). Gostava de poder estar sempre na Madeira, que os meus amigos, e o meu professor também, que a minha escola e os meus pais estivessem na Madeira. Gostaria que o Simão voltasse para a nossa escola... Gostava de continuar a ser a melhor aluna. Gostava que a minha família tivesse saúde."
A Objectiva - 8 anos - 3º ano

"Eu no futuro queria ser um jogador de futebol para jogar no Manchester United, para estar ao pé do Cristiano Ronaldo, do Nani e do Tevez. Eu queria ser um homem aranha para lutar contra o mal e salvar as pessoas dos perigos e salvar o mundo."
O Super-herói - 8 anos - 3º ano

"Eu gostava que o meu primeiro gato Tótó voltasse para a minha quinta em Torres Novas.
Também gostava que o meu professor vivesse feliz para sempre. Eu gostava de ser médica, pediatra, veterinária e professora. Eu e a minha mãe gostávamos de ser pintoras! Eu gostava de ir para concursos de slatos com o meu pónei. E também gostava de ir com a minha cadela Skippy. Gostava de ser uma menina com bom coração e continuar a ajudar os meninos pobres"
A Tia - 8 anos - 3º ano

"O meu sonho era andar no Parkur a fazer muitos saltos nas paredes e nos prédios altos daqueles muito perigosos para ganhar a taça dos saltos. O meu sonho também era andar nas corridas de motas para ganhar a taça mundial. O meu sonho também era andar de carro, quando fosse grande escusava de andar a pé e se fosse às comprar podia pôr as compras no carro, escusava de chamar um táxi para me levar para casa. E escusava de levar dinheiro..."
A Maria rapaz - 9 anos - 3º ano

"Eu gostava de ser jogador de futebol - porque eu sei jogar futebol. E quero ser tractorista, porque eu sei conduzir tractores porque o meu pai ensinou-me. Eu gostava que o Miguel fosse a minha casa para brincar com ele futebol e ouvir música. Eu gostava que a minha família fosse boa..."
O Estrangeiro - 9 anos - 3º ano

"Eu gostava de ser jogador de Râguebi e de futebol. Que os meus três cães, que agora tenho seis, não morressem. E, que no futuro, estivessem vivos. Que os meus pais tivessem vida eterna e, ao mesmo tempo, conseguir ver o espaço que eu acho, e muitas pessoas, lindíssimo. Guiar um Porshe Cayenne Turbo, um Mercedes, um Monster, o jipe melhor do mundo. ter imensas metralhas, granadas e ser o 007."
O James Bond - 9 anos - 4º ano

"Eu quando for grande queria que a minha família tivesse com saúde e viva, gostava também de ser muito feliz. Adorava conhecer outros países. Gostava muito de ter os mesmos amigos, ou ainda ter mais. Gostava muito de ter um irmão ou irmã bebé e também gostava que a minha prima Leonor (que é bebé) nunca mais crescesse. Gostava mesmo muito, muito, muito de ter um gato e também conhecer os meus primos (as) de França."
A Babysitter - 9 anos - 4º ano

"O meu sonho é sair do Lar. Queria que a minha mãe e o meu pai saíssem da prisão. Gostava de viver com eles numa casa. Assim podia ir à rua com eles passear e brincar. Quando fosse mais velho gostava de voltar a ver os meus amigos. Eu quando for grande quero ser polícia. E por fim gostava de ver os meus cães, mas aquele que eu queria ver mais era a huskkie."
O Amputado - 11 anos - 4º ano

"No futuro adorava ver uma nebulosa para a explorar, um buraco negro, uma galáxia, que inventassem óculos para ver o Sol do espaço, juntamente com uma sonda que suportasse altos graus célsios. Sempre quis num futuro próximo inventar algo para eu e os outros astronautas visitarmos os planetas, como: Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Neptuno. Que Plutão fosse, de novo, considerado um planeta e ver outras galáxias longínquas. Ser arqueólogo ia ser fantástico, porque podia encontrar ossos de: dinossauros, semilodon ou tigre-dentes-de-sabre, megonthereon, maschairadus, mamute bisonte e de outras espécies de há milhões de anos e estudar: a vida marinha, o corpo humano e catástrofes naturais."
O Cientista - 9 anos - 4º ano

"O meu primeiro sonho era, no futuro, ser estilista de moda. Ia fazer vários vestidos, saias e calças. O meu segundo sonho era ir aos Estados Unidos ter com aminha madrinha e o meu padrinho. O meu último soinho era que o meu cão Hanuc voltasse."
A Gaja - 9 anos - 3º ano

COERÊNCIA

Amo quando não preciso de (me) explicar. Ou para me explicar. Ou para me dizer e contradizer. Às vezes tento ler-me … tento, e cada vez que o tento sinto-me incapaz, quase como as palavras que saem mais depressa do que aquilo que penso. Palavras que saem mais depressa do que se deseja. Tenho grandes dúvidas no que desejo, tampouco explico quando desejo. Respondo mas não explico, porque, convenhamos, responder está a anos-luz de explicar. Explicar demora… explicar demora toda uma vida. Quem, de facto, se presta a gastar toda uma vida à procura de uma explicação? Quem se presta sequer a gastar toda uma vida à procura de uma resposta que seja. Entendo que nos colocamos no mesmo plano quando nos entendemos, não quando nos respondemos, não quando nos elogiamos. Eu sou muito mais de apontar do que de elogiar, sou muito mais vulgar, acho… Aliás, não somos todos muito mais vulgares do que pensamos? Ok, certos, uns são vulgares no momento certo e outros em todos os momentos. Por exemplo, uma mulher que se possa apelidar de vulgar na cama educa a memória, já um homem vulgar na rua educa o esquecimento. Quase que se pode ligar, de forma indissociável, vulgaridade com linha de pensamento estanque, os auto-denominados coerentes. Coerentes com quê? Com o que pensavam há 20 anos? O pensamento cresce, corre e sonha. O pensamento migra, emigra e imigra, uma e outra e outra vez. Uma das coisas em que o meu pensamento me aflige é pensar que quero falar e não me sai nada. Mudo. Que ninguém me vê. Que levanto o braço num anfiteatro para participar e que o orador olha para mim mas não me vê, como se lá não estivesse. Tudo isto ao contrário da primária onde assim que levantávamos o dedo ( - podíamos fazer outra coisa nessa altura?) ouvíamos o nosso nome
- Diz, João ( - questionava a D. Berta)
E esse momento era de tamanha importância para nós, fedelhos. Quando percebemos ainda muito poucas coisas, a coisa mais importante é ouvirmos o nosso nome. Depois, em adultos, há pessoas que só se interessam por determinadas conversas assim que ouvem o seu nome ( - é um extraordinário exercício, este!). E o interesse de uma conversa (seja ela qual for) não passa (nunca) por reduzi-la a um nome. Mas, como em tudo na vida, quanto mais se explicam as coisas, mais confundimos as pessoas. Importa também frisar que existem espaços e, sobretudo, tempos próprios para explicações, senão vejamos, como se esclarecem dúvidas num relacionamento ao fim do dia, ou à noite? Erram-se as respostas, depois tenta-se acertá-las, corrigi-las e, nessa altura, estamos perfeitamente atrapalhados com as palavras ditas. Invariavelmente, confessamos que as dissemos sem pensar e, aí, nessa mesma altura, passamos de vítima a tiranos. Será uma das razões do, actual, fracasso dos casamentos? Será que decorrem das más horas e do deficiente uso das palavras, ainda que com boas intenções? Porque, diga-se, extorquir um pedido de desculpas não é tarefa fácil e, sem estas, esgotam-se as possibilidades de acabar uma discussão de forma elevada. Depois? Depois já só resta o cinismo ou o pranto.
Eu acho que amo quando não preciso de (me) explicar.
Acho mesmo que amo para não ter de me explicar.

QUANDO CONSEGUIR CRESCER

Confesso que tenho dias que são como um livro sem uma folha ou uma fissura numa parede. Não faço a mais pequena ideia de quem ou se alguém me furtou ou pediu emprestada ou simplesmente me aliviou do peso de me lembrar alguma data da minha vida. Tenho como meta ser recordado por tudo aquilo que me esqueci. E tudo o que me esqueci não cabe num aeródromo. Embalando o assunto com meios de transporte, atrevo-me a aferir dois tipos de memória: memória de taxista e memória de passageiro. A minha memória é, claramente, a de um passageiro. Nunca repito ruas sem as falhar, entro sempre noutra como se da que procuro se tratasse. Não retenho nomes para brincar aos polícias com as caixas de correio da cidade. Quando conseguir crescer quero fazer o que não consegui aquando criança. Já se trocar a fechadura da porta, a chaves ficam comigo. As chaves são as nossas alianças com a nossa casa. E as delas as nossas paredes, cantos e recantos. E em casamentos não se compram brigas gratuitas ( - A minha porta sente ciúmes do que se fala à varanda, porque a janela participa…). A tê-los, todos os meus fantasmas são reservados como um cigarro perto do seu fim…

NA TURQUIA FAZ-SE MAGIA


Neste fim de semana visitei, de forma muito agradável e limpa, Paris...



Agora onde me perdi por completo foi em Istambul. Deixa pouco para que se consiga traduzir em palavras. Completo. Soberbo.

ADENDA

GO Obama, GO

PEQUENAS IDEIAS

O que realmente importa, não são as grandes ideias que outros tiveram, mas as pequenas coisas que só individualmente ocorrem. Embora, se já é difícil descobri-las, mais ainda enquadrá-las, pô-las em perspectiva. Quanto mais simples a ideia, mais difícil se torna descobri-la.

CIRCUNSPECÇÃO

Todos e cada um de nós possui, revelando-se numa específica e determinada altura da nossa vida, qualquer coisa de especial. Esta revelação acontece uma única vez, como se de uma chama se tratasse. As pessoas atentas, precavidas conservam zelosamente essa chama, inflamam-na e usam-na qual porta-estandarte como iluminação-guia no que todos (embora de formas tão diferentes como singulares) chamam viver. Atente-se que, uma vez apagada, muito dificilmente, para não gastar nunca, se volta a acender. Não é por força de riscar fósforos numa caixa molhada que estes se vão acender...
Depois, no escuro, é difícil caminhar no breu. Torna-se insuficiente calcorrear caminhos sozinho. Tornamo-nos pobres à força de pensar nas coisas única e exclusivamente por nossa conta, limitamo-nos gravemente à nossa perpectiva. Estar sozinho pode tornar-se uma coisa terrivelmente depressiva.
Já para aqui tinha dito que sou muito precavido?

RETALHOS

(...) Como Delphine detestava todas aquelas famílias, a pura e antiga aristocracia das províncias, pensando todas da mesma maneira, todas parecidas umas com as outras, partilhando os mesmos valores asfixiantes e a mesma asfixiante obediência religiosa. Por muito grande que seja a sua ambição e por muito que instiguem os seus filhos, educam-nos sempre nos moldes da mesma litania de caridade, abnegação, disciplina, fé e respeito - respeito não pelo indivíduo (abaixo o indivíduo!), mas pelas tradições da família. Acima da inteligência, da criatividade, de um profundo desenvolvimento pessoal independente do deles, acima e mais fortes do que tudo estavam as tradições (...)

PHILIP ROTH :: A Mancha Humana :: Dom Quixote




(...) Oh, juventude, juventude! não te preocupas com nada, parece que todos os tesouros do universo te pertencem, a própria tristeza te é aprazível, a própria angústia te fica bem, és convencida e atrevida, dizes: só eu vivo, olhai... mas os dias correm e desaparecem sem deixar rasto, perdendo-se-lhes a conta, e tudo o que tinhas desaparece como a cera do sol, como a neve... E talvez o enigma do teu encanto não seja o de conseguires tudo mas a possibilidade de pensares que consegues tudo - consiste precisamente em lançares ao vento as forças que não saberias aproveitar; consiste em que cada um de nós se considera, sem ironia, um esbanjador de tempo, e acha, a sério, que tem o direito de dizer: oh, o que eu conseguiria se não tivesse perdido o tempo em vão! (...)

IVAN TURGUÉNEV :: O Primeiro Amor :: Relógio de Água



(...) - Até certo ponto, deve ser inato. Neste caso, acho que podemos mesmo falar em talento. Algumas pessoas são desenrascadas; outras são desastradas até dizer chega... Há pessoas atentas e outras completamente despistadas. Não achas?
Voltei a fazer que sim com a cabeça.
- Pronto, agora imagina o seguinte. Supõe que vais fazer uma longa viagem de carro com outra pessoa qualquer, e que vão conduzir por turnos. Nesse caso, que tipo de pessoa é que escolherias? Uma que guiasse bem, mas que fosse imprudente, ou uma que não guiasse tão bem, mas que fosse prudente?
- A segunda, provavelmente - respondi eu.
- Também eu - retorquiu ela - Temos aqui uma situação muito parecida. Ser bom ou mau, ser despachado ou desajeitado, isso são coisas de somenos. Na minha opinião, o que é importante é estar atento. Ficar calmo, estar atento ao que se passa à nossa volta.
- Atento? - repeti eu.
Ela não respondeu e limitou-se a sorrir. (...)

HARUKI MURAKAMI :: Sputnik, meu amor :: |||casadasletras

QUERO-TE

Há uns anos quem comigo convivia de muito perto acusava-me de só ouvir melancolia - Portishead, Cocorosie ou Radiohead. Sendo que que o termo atrás se encontra envolvido em tristeza, em incapacidade, em desgosto, digam-me lá se esta não é, porventura, uma das melhores formas de dizer que se gosta de alguém; uma muito decifrável manifestação de gostar à bruta, de se dizer fica comigo, de se confirmar
quero-te
Faz-me muito sentido isto


ROMA, ENQUANTO SE PASSEIA




Roma/Julho 2008